Cartórios do estado Ceará(CE)
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A história dos cartórios no Brasil, e consequentemente no Ceará, é intrinsecamente ligada à evolução do Estado e do sistema jurídico nacional. Sua trajetória, desde as origens no período imperial até a complexa estrutura atual, reflete as transformações políticas, sociais e econômicas do país.
No período imperial (1822-1889), os cartórios eram essencialmente delegações de funções estatais, outorgadas por meio de cartas de foral. O tabelião, figura central, acumulava funções de registro civil, notas, protestos e, em alguns casos, até mesmo funções judiciais. A nomeação era vitalícia e, frequentemente, baseada em critérios de lealdade política e status social, configurando um sistema patrimonialista. A legislação da época, como o Código Comercial de 1850, já delineava algumas das atividades notariais e registrais, mas a regulamentação era incipiente e descentralizada.
Com a Proclamação da República (1889), iniciou-se um processo gradual de modernização e profissionalização dos cartórios. A Constituição de 1891 estabeleceu a laicidade do Estado e a separação entre as funções judiciais e extrajudiciais, embora a transição tenha sido lenta. A figura do tabelião continuou sendo a de um delegado do poder público, mas a crescente demanda por segurança jurídica e a expansão econômica impulsionaram a necessidade de uma regulamentação mais específica. No início do século XX, leis federais começaram a tratar de temas como o registro de imóveis e o registro civil, buscando uniformizar os procedimentos em todo o território nacional.
A década de 1930, com a Revolução de 1930 e a Era Vargas, marcou um ponto de inflexão. A Constituição de 1934 e o Código Civil de 1916 (com suas alterações posteriores) consolidaram a importância dos cartórios como agentes de fé pública. A criação do Conselho Nacional de Registro de Imóveis (CNR), em 1932, e do Colégio Notarial do Brasil (CNB), em 1934, representaram avanços significativos na organização e na padronização das práticas notariais e registrais. A legislação da época também introduziu a exigência de concurso público para o acesso à função de tabelião, embora o sistema de delegação ainda persistisse.
A partir da década de 1960, o sistema de delegação foi gradualmente substituído pelo sistema de provimento, em que o acesso à função de tabelião passou a ser feito por meio de concurso público de provas e títulos, com a posterior nomeação pelo Poder Judiciário. Essa mudança visava garantir maior transparência, eficiência e qualificação técnica dos profissionais. A Lei de Registros Públicos (Lei nº 6.015/73) representou um marco fundamental na regulamentação da atividade notarial e registral, estabelecendo normas detalhadas sobre os procedimentos, as responsabilidades e a fiscalização dos cartórios.
No âmbito do estado do Ceará, a evolução dos cartórios acompanhou as tendências nacionais. A legislação estadual vigente, complementando a legislação federal, estabeleceu as regras para a criação, o funcionamento e a fiscalização dos cartórios cearenses. O Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) assumiu a responsabilidade pela nomeação dos tabeliães e oficiais de registro, bem como pela supervisão e controle das atividades notariais e registrais no estado.
A estrutura atual do TJCE, no que se refere aos cartórios, envolve a Corregedoria Geral da Justiça, responsável pela fiscalização e pela orientação dos serviços extrajudiciais. A Corregedoria realiza inspeções periódicas, analisa processos e apura denúncias, garantindo o cumprimento da legislação e a qualidade dos serviços prestados. Além disso, o TJCE possui um sistema de controle de vagas e de abertura de novas serventias, buscando atender às demandas da população e promover a modernização dos cartórios.
Atualmente, os cartórios no Ceará, assim como em todo o Brasil, estão passando por um processo de digitalização e modernização, com a implementação de sistemas eletrônicos de registro e a utilização de tecnologias como a assinatura digital e o certificado digital. Essa transformação visa tornar os serviços mais rápidos, eficientes e acessíveis à população, além de aumentar a segurança jurídica dos atos praticados.
Em suma, a trajetória dos cartórios no Ceará, desde o período imperial até a estrutura atual do TJCE, é um reflexo da evolução do sistema jurídico brasileiro e da busca por maior segurança jurídica, eficiência e transparência na prestação de serviços à sociedade.


